"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

17/07/2013

Não foi um adeus, foi um até já.

A água batia-me nos pés e o frio entranhava-se nos meus ossos. Sorri. Sentir aquela pontada irritante significava que eu voltara à vila que nunca deveria ter abandonado. Sou filha desta gente, vivo deste oxigénio, existo apenas nesta realidade. Por momentos esqueci que as pessoas me podiam observar e senti que podia ficar nua perante o mundo. Sem preconceitos, medos ou ideias feitas. Pus o coração ao alto, desliguei o cérebro e entrei na água. Sentia-me gelar, por dentro e por fora, mas não recuei. Eu precisava daquilo, de congelar o meu coração e os meus sentimentos. Precisava de não sentir nada. Ou melhor, precisava sentir-me apenas a mim. A mim, aos meus pensamentos e ao meu desejo de nunca mais sair daquela água gelada. Fechei os olhos e ouvi o som das gaivotas misturar-se com as ondas que batiam ao de leve na areia, como quem beija a testa de um amor profundo. Passavam os minutos, o sol avançava no céu e eu deixei de sentir o frio picar-me os ossos. Tornei-me novamente parte daquele mar, daquele sal que se entranha nos nossos pulmões. Saí da água de pele enrugada e lábios roxos, mas de coração quente. Quem diria que eu, mulher da cidade, teria o pedaço que me faltava tão longe de tudo o que conheço? Está na hora de me mudar de alma e bagagens para o meu lar. Porque o meu lar será sempre onde estiver o meu coração. E o meu coração está aqui: nesta água fria.

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