"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

16/07/2013

Pensamentos velozes e furiosos na calada da noite

Ela permanecia deitada na solidão quente do quarto. Este quarto não era o seu. Não cheirava a si. Não tinha o seu perfume. E, deitada naquela cama, com aquele colchão demasiado diferente do seu, os pensamentos soavam-lhe estranhos. Como se, no fundo, também eles não lhe pertencessem. Afinal de contas havia tanto que não lhe pertencia ... Apesar disto, ela deixava os pensamentos vaguear. Gostava quando isso acontecia. Parecia que o próprio medo, do qual ela era feita e no qual se envolvia, se eclipsava enquanto os pensamentos lhe corriam, velozes. Furiosos. Dolorosos. Demasiado dolorosos para a sua fraca mente. Algumas noites nem chegava a adormecer. Ficava apenas a escutar os sons da noite serrada ao qual se seguia a madrugada límpida. O novo dia que chegava. Até que o Sol nascia em todo o seu esplendor. Aí, ela levantava-se e corria para o armário vestindo umas calças de ganga e uma camisola simples, de um azul profundo. Maquilhava-se e, por fim, saía à rua como se nada fosse. Sorria, estas roupas eram suas. Estas roupas cheiravam ao que era. Possuíam as suas marcas, o seu suor, o seu perfume e as suas lágrimas. E, aí, fitando o Sol, já nada lhe provocava o medo da noite. Tudo era novo. Como se em todas as suas noites não a visitassem fantasmas do passado e fantasias inacabadas. Como se os seus pensamentos de nada valessem face ao novo dia que nascia.

5 comentários:

  1. Lindo, adorei. Belo texto com uma mistura de ti.

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  2. O medo é algo bom. É na na noite que desbravamos o nosso interior, este que pouco conhecemos. Quem sabe ao lado de fantasmas não é a hora que ela se descobre rs.

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  3. "Ela permanecia deitada na solidão quente do quarto."- arrepiei-me :)

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  4. está completamente lindo. sabes ? é bom ver pitadas de mim na tua escrita. ver formas de escrever idênticas. aspetos similares. orgulho-me muito da tua evolução e não poderia ficar mais feliz por saber que, em algum momento, fiz parte da tua inspiração.

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  5. À medida que leio os vossos textos vou percebendo cada vez mais o talento que aqui há, a vossa escrita arrepia-me. Talvez seja por isso que tenho adiado a minha primeira publicaçao aqui, eu amo escrever, mas não sinto que tenha talento. Vocês sim, nota-se que nasceram para isto.

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