"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

29/07/2013

Pés descalços

De pés descalços, ela caminhava. O chão era duro. As pedras que o envolviam tornavam mais difícil a caminhada. Mas, apesar disso, ela continuava. Olhava ocasionalmente para trás mas continuava. Não tinha outra saída se não o que via em frente. Não havia escapatória possível e, lá no fundo, ela sabia-o. O caminho era para a frente, pensava ela passada após passada. Tinha que continuar. Sozinha. Mas tinha que continuar. Não se podia abandonar por entre ruas desconhecidas. Não podia deixar-se ficar sentada no chão como queria quando as forças lhe faltavam. Tinha que continuar. Tinha. Só lhe apetecia desistir. Sentar-se e deixar que tudo se abatesse sobre ela. Sentar-se e abandonar-se a si, dormir para não acordar mais. Não pensar mais.
As pedras que adornavam o chão faziam com que os pés lhe doessem ao contactarem. Os pés doíam tanto como lhe doía o coração. Apertado. Como se umas mãos fortes de um corpo possante o apertassem. Como se o peso do futuro se encontrasse com o peso do passado e a impedisse de viver o presente. Qualquer lembrança do que tinha vivido a fazia isolar-se, ainda mais, do mundo que a rodeava. Ela sentia que não era capaz de encarar de frente o que a impedia de sorrir completamente. Ela sentia que estava sozinha no mundo. Que, cada vez menos, deixava que alguém a conhecesse totalmente porque a lembrança pesava. Parecia que tinha o peso do mundo nos ombros e isso custava muito. Custava muito mesmo. Ardia-lhe a garganta. Ardia-lhe todo o coração. 

3 comentários:

  1. Uau que texto! *Ardia-lhe todo o coração* acho que conheço essa sensação...
    novo blog: sombrastaoimperfeitas.blogspot.com/

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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