"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

03/08/2013

um sorriso descontente para disfarçar as lágrimas

Sou como uma tartaruga – este é o momento em que troçariam de mim, dizendo que de facto eu era bastante lenta, mas não, não me refiro a isso –, eu sou a minha casa. Acho que todos estamos familiarizados com o aspecto de uma tartaruga, aquele ser vivo centenário, que tem uma carapaça que a protege, desde criança que é esta a ideia que tenho delas, aliás, esta seria praticamente a mesma descrição que eu faria de uma há 10 anos atrás. Mas há uma coisa que os anos mudaram. Eu fui criando uma carapaça, pode não ser feita de calcário conquífero e não, não vai reagir com o ácido clorídrico, porque eu vou além da química. Eu sou esta complicação descomplicada que tem a mania que é muito independente com os seus doces dezassete anos supostamente despreocupados, mas repletos de preocupações. Criei esta carapaça sem um botão de “autodestruição”, apenas porque na altura não achei necessário. Chegar até mim, até à minha essência, nem sempre é fácil. Mas pode ser. Basta quererem. O problema está no querer. Ninguém tem vontade de entender alguém que afasta todos. Mas eu sou muito forte. Eu sorrio muito. Dizem eles. Sendo que eles são aqueles que nada sabem sobre mim. Mas eu não os culpo. Até porque eles julgam que me conhecem, mas não conhecem. Nem eu me conheço. Eu comecei este texto com a convicção de que era uma tartaruga e agora acho que sou a cria de um canguru, que está protegida pela bolsa marsupial, porque é demasiado fraca para se defender sozinha. Sou assim. Uma miúda decidida cheia de indecisões, uma tartaruga que anseia por perder a carapaça e um canguru que quer crescer. No fundo, confesso, eu só queria saber quem sou, por onde e para onde vou, mas não sei, e já dizia José Régio, “sei que não vou por aí”. Sei que não vou optar pelo caminho mais fácil. Aliás, isso ia contra um princípio que está “inserido” em mim desde criança: vou complicar sempre o que é mais fácil, e tornar ainda mais complicado o que é difícil. Eu sou assim. E tenho medo de descobrir que caminho irei seguir. Este texto supostamente seria sobre o meu futuro. Iria começar com a brilhante frase: “Devemos enfrentar os nossos medos, por isso vou escrever sobre o meu futuro” ; demorei horas a chegar a esta frase estúpida. Depois demorei mais umas horas a concluir que a estúpida era eu, por duas óbvias razões. Primeiro, tenho lá coragem para enfrentar o que quer que seja, muito menos a dura realidade do que será o meu futuro pouco ou nada promissor. E a segunda razão para a minha estupidez, é o facto de eu não saber escrever. Eu finjo que sei, e nem fingir eu sei. Escrevo porque sou fraca e não me sei exprimir doutra forma. Ponto final. Mas talvez eu seja mais forte do que penso. Talvez eu já saiba o que quero. Talvez eu tenha uma garra de leoa. Talvez não. O escuro assusta-me. Ou a ideia que eu tenho do escuro é assustadora para mim. Porque o escuro, por si só, não me assusta. Assusta-me é o desconhecido, o mistério que o escuro envolve, o que lá vai estar, e, pior, o que lá não vai estar. O futuro é o escuro da minha vida. Cabe-me a mim desenhá-lo, colori-lo, dar-lhe vida. E porra, nunca tive jeito para o desenho.

6 comentários:

  1. Gosto do pouco de humor que usas para contrastar com os assuntos sérios de que escreves. Acho que é uma forma que arranjas para, mais uma vez, te protegeres dos teus pensamentos mais negativos. Descomplica Lúcia, e descobrirás um mundo cheio de desenhos feitos por ti enquanto sonhas :)

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    1. ando a tentar descobrir como posso fazer isso, como posso arranjar uma forma de "descomplicar", mas quanto mais penso nisso, mais complico, irónico não é? e obrigada :)

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  2. Podes ser fraca porque escreves, mas a doença da escrita é a doença que te cura mais facilmente. E Lúcia, és tão melhor do que julgas. És maravilhosa. No valor de mil catedrais :)

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    1. obrigada Mariana, a sério :) talvez um dia eu me consiga valorizar dessa forma.

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