"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

12/09/2013

A casa

A casa ainda não estava desocupada.
A luz entrava pelas telhas partidas e pelas janelas sem vidros. No ar, quando o sol atacava, notava-se o pó que enchia a casa. Os móveis esquecidos, nos seus cantos próximos das paredes, serviam de local de caça para as aranhas. 
Por vezes, quando o barulho - provocado pelos passos de quem se atrevia a visitar a casa velha - era maior, ouviam-se guinchos fulminantes e bater de asas supersónicos atravessarem as divisões da casa. O chão, já antigo e desgastado, ia mostrando o seu interior. Um ou outro rato passeava por entre as pilhas de lixo que foram crescendo ao longo dos anos.
Subindo as escadas, com ou sem cuidado, elas gemiam de dor. A idade e o tempo não tinham sido nada simpáticos com elas. No cimo dos degraus, havia um corredor onde as cores sujas eram predominantes. Havia cinco portas: duas de cada lado, todas fechadas, e uma no fim do corredor. Esta última estava aberta, como se nos convidasse, atrevidamente, a entrar e a conhecer o quarto. 
A cama do quarto continua desfeita. Os lençóis rasgados e sujos com o sangue seco. Ali dormia uma mulher, numa noite quente de verão, sossegada, esperando o retorno do marido que trabalhara até tarde. Ela era frágil, de pele branca e cabelos negros. Tinha uns olhos castanhos que pareciam encher-se de mundo quando alguma luz lhes tocava.
Há noites de verão que se revelam verdadeiras desgraças. Aquela foi uma delas. 
O marido, depois de ter deixado o trabalho tardio, chegou a casa. Percorreu a cozinha em busca do artefacto certo e, depois de o encontrar, subiu escadas até ao fundo do corredor; até ao quarto. A janela aberta deixava-se ser violentada pela brisa. Ele caminhou até à cama. Levantou um pouco a faca. A luz da lua cheia entrava no quarto e fazia com que a sombra do homem ficasse pintada na parede. A faca trespassou o peito da mulher até o braço do marido estar sem forças. O sangue escorria pelo corpo, manchando os lençóis e o colchão e deixando um odor no ar, perfumando intensamente o quarto. A mulher se apercebeu de quase nada. As facadas foram fatais. Morreu a dormir, sossegada.
Há quem diga que a casa nunca estará desocupada. 
Há quem diga que, quem morreu a dormir, está bem acordada agora.
O marido morreu passado poucos meses, enforcado, na prisão. Dizem que ficou louco, pois a mulher assombrava-o todas as noites. O trabalho tardio do homem morrera também ele: a amante morreu enquanto tomava banho, uma assombração, de cabelos negros e olhos castanhos cheios de mundo, empurrou-a.
Se um espírito com ódio é ruim, imagem um, apaixonado.

6 comentários: