"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

03/09/2013

Final do mês- Vingança



Queria dizer-te que nunca soube o que era a vingança, porque afinal nunca dela precisei. Nunca fiz uso dos termos. E tu és a vítima, aí estendida, sem sorrisos no rosto. Apenas choque.
                Escrevo-te porque precisei de um motivo para entregar de novo ao pensamento tudo o que surgiu entre nós e a dor que te causei, mas a verdade é que parece que não chega.
                Escrevo-te para que entendas que a vingança não foi apenas diversão, mas parte da questão.
                No dia em que decidiste contribuir para a derrocada da minha vida, cresceu em mim uma casa gigante de medo e possessão, e tive que agir. À minha volta surgiam apenas imagens escuras e pensamentos de ódio dirigidos a ti. Via a tua imagem no espelho e queria deforma-la. Queria que chegasses a casa com vontade de baixar as molduras e chorar sobre os lençóis. Que não conseguisses olhar para ele, o motivo de nós. O motivo da raiva que ajudaste a criar em mim. E mesmo que tente descobrir-te as palavras, já não quero.
                Tento que sejas apenas pó.

Despojada de valores, mantenho-me no chão. O chão é frio contra a pele arrepiada da minha cara e ainda assim sinto o sabor de sangue velho e adormecido na boca. Oiço a minha própria respiração entrecortada e pouco mais, e oiço a respiração acelerada dos pulmões propulsionados pelo coração a bater de adrenalina dela.
Mesmo assim, com a vida a passar num flash à frente dos olhos claros semicerrados, consigo quase que sentir empatia pelo ódio que dela emana; mas ao mesmo tempo, enquanto cada sopro sai mais frio que o outro, desejo-lhe um destino pior que o meio, desejo-lhe um pecado pior do que o que eu cometi.
Apaixonei-me pelo homem errado, homem amarrado com correntes de titânio a uma mulher que ele já não desejava – ou assim me prometia, enquanto me sorria e me dizia que amava. Eu estava destinada a ser sempre a Outra, a Amante, a Culpada. E mesmo quando ela me descobriu e me retirou tudo o que eu tinha, despindo-me os defeitos à frente de todos e atirando-me nua para a boca dos chacais, ainda tive a réstia de esperança de ser salva daquela situação. Mas ela entrou-me pela casa dentro, destruindo as dobradiças e mandando a porta abaixo, e deu cabo de tudo. Das minhas conquistas. Dos meus feitos. De quem eu amava. Foi tão fácil como estilhaçar vidro com um martelo.
Se o mereci ou não, deixo essa questão para quem a saiba responder. Ela destruiu-me. Ela matou-me. Não empunhou a caneta com a qual risquei os braços de vermelho, mas cravou-me as garras do desespero com tanta força que esta é a única saída. 
Afinal, ela teve o que quis. Agora, serei pó.

por Sofia Marques e Mariana Branco

2 comentários:

  1. grande texto de final de mês, parabéns às duas, está lindo :)

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  2. vocês gostam mesmo de tocar no coração das pessoas.

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