"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

17/10/2013

Circo

Chovia torrencialmente sobre a quinta do meu avô. Eu estava petrificado à janela. Olhando para a casota vermelha do cão. O mesmo cão que tentara, naquela tarde, atacar-me. Dera-me uma dentada na perna; eu tinha sete anos.
Oiço um grande rebuliço na cozinha. Oiço gritos de um lado e respostas gritantes do outro. Oiço um “Não vás!” estalido. Oiço do outro lado alguém a responder com um vocifero autoritário. O meu avô sai, muito agitado, da cozinha. Eu sigo-o até à porta meio acanhado e com medo. Ainda caí na tentação de lhe falar mas ele não deve ter ouvido com a imensa raiva que lhe percorria as veias. Abriu a porta com força. Em passos largos, rasteiros, possantes, duros caminhava em direcção à casota que morria junto ao velho carvalho. Num gesto repentino e enérgico puxa a corrente que mantinha o cão preso. O cão é arrastado violentamente para o meio do temporal. O velho com um ímpeto enorme profere o primeiro pontapé no animal. A minha avó estatelada em frente à porta olhando para aquilo mandou um pranto. Eu estava imóvel em cima do sofá, olhando pela janela. Lá ao longe, no horizonte, um relâmpago esbarra contra a terra iluminando todo o céu. Debaixo do carvalho é outro pontapé que esbarra contra o cão. A chuva continua a cair cada vez mais fortes. As roupas do velho já estavam alagadas mas não seria isso impedimento para, mais uma vez, pontapear o animal arrogantemente. Eu continuava a ver aquele jogo, sim porque aquilo para mim não passava de um jogo, um jogo divertido que eu não me cansaria de ver. O primeiro pontapé não teve qualquer impacto em mim. Os outros começaram a tocar-me de alguma maneira libertando aos poucos os sorrisos e adrenalina. Até que cheguei a um ponto que, em cima do sofá, saltava, cada vez mais alto, aplaudindo. Pedia mais e mais e mais do mesmo; por favor! A minha avó da porta lança-me um olhar feroz e aterrador. Não liguei. 
Continuei a ver o meu show preferido. Caiu um relâmpago bem perto da casa. A luz intensa do raio clareou o velho carvalho e tudo o que se passava debaixo dele. Eu olhava fixamente e, enquanto pulava, reparei numa poça de sangue à entrada da casota. Foi nesse mesmo instante que senti que o divertimento havia chegado ao fim. O cão estava morto. Lembro-me de ter ficado um pouco triste, mas isso passou rapidamente, pois as memórias dos latidos ofegantes ainda cá estavam, e estão, a encher-me as insónias desmedidas que vou tendo hoje em dia.

Sem comentários:

Enviar um comentário