"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

31/10/2013

Tempestade



Está a rebentar uma tempestade lá fora. Há realmente corvos nas árvores recordando-se de nós. Oh, estás deitado sobre os lençóis da manhã e há definitivamente uma tempestade lá fora.
Não me tinha apercebido de quão frágeis éramos sobre a força da cidade que se despenha lá fora sobre anzóis azuis de vento e chuva. Fizemos amor de últimos dias para nos despedirmos dos outros e de nós. Para nos despedirmos das discussões que só acabavam sob vinho e transacção de sentimentos.
Acho que não gosto de ti. Tenho a certeza que odeio. Faço sexo com um estranho enquanto a cidade morre e grito de prazer, porque te vais embora.
Estou na outra ponta da estrutura de madeira igual aos cortinados comidos pelo tempo e o quarto derrama tristeza sobre nós.
É isto uma tempestade.

Talvez não sejamos mesmo mais que isso; mais que cortinados comidos pelo tempo, quartos cheios de tristeza ou gemidos cortantes de prazer. Talvez não sejamos mais que a tempestade que rebenta lá fora.
Os relâmpagos caem desamparados do céu. Vejo-os através da janela fechada, vejo-os cair por entre travos de uma bebida quente e sórdida que bebo de copo velho e sujo de cristal.
A viagem é amanhã.
Talvez ainda haja tempo para despedidas, mas duvido. É-nos tão familiar o ódio um pelo outro como os nossos corpos que dedilhamos vezes sem conta no escuro, no frio ou por entre as músicas que a rádio tocava.
Confio-te, antes da partida e antes que desmaie no sono, um último segredo: também a tempestade que rebenta lá fora é música, sei que não a ouves como eu, mas irás, quando te fizer falta na cama um corpo ou um cadáver desses que consomes e manipulas apenas por prazer.


Meu querido. No início de tudo e de todas as coisas, sobretudo de nós, não sabíamos as direcções que se atravessariam sobre tudo isto. Por isso é que nos odiamos. Não fazíamos a mínima ideia das coisas. Talvez tu saibas mais que eu, porque viveste permanentemente no escuro. Eu vivo na divisão das coisas, e por isso nunca te exigi mais que uma dose de orgasmo e um gemido. Tens o corpo perfeito e nunca abriste a alma no inverno da nossa relação. Será mesmo uma relação?
Hoje, que partes, acho-te diferente. Hoje parece que me castigo e vislumbro um pouco mais de corpo em nós. Agora torturo-me na ideia de te ver partir e verter uma lágrima. Porque em todas essas viagens corporais contavas-me histórias, e eu não imaginava.
Talvez também não repares no rosto que virei de lado quando fechaste a porta. Um banho de água fria. Porque é no vazio que descobri que te amava.

Não és tu diferente de todos os outros, por muito que querias. Afinal, não é no vazio que se descobre que se ama?

Ricardo Cunha e Mariana Branco

4 comentários:

  1. Adorei este texto. Foi sem dúvida uma ótima parceria! Que excelente trabalho! :) Por vezes o amor está escondido e bem camuflado por debaixo do ódio mal representado!

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    1. Muito obrigado!

      E, talvez, em breve, haja mais destas parcerias.

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