"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

23/11/2013

Franco morreu ontem!

Era Verão. A fome chegara às mãos e já não tinham mais pão para encher as bocas lá no barracão. Uma família inteira sem perdão perante o governo, combatia os momentos de opressão e de grande desilusão que atravessavam.
A desgraça tirava-lhes os momentos de graça e sorriso. A força dos militares podres do exército morto da libertação utópica que o homem velho prometeu tirou-lhes a fé. A esperança essa - a última a morrer, dizem as bocas populares - agarravam-na sem medo, sem armas, com força e trabalho árduo na causa.
O pai tinha partido não se sabe para onde. Andava perdido por entre as prisões, destinadas a revolucionários, que se ergueram em pouco tempo pela península fora. Ele era mais um homem de barba rija e que queria o seu país de volta. Não queria um tirano a governá-lo. Isto e todas as opiniões e ideias que lhe enchiam a cabeça eram as coisas que lhe tinham valido horas imensas de tortura.
Um dia de chuva, durante a época quente, apareceu. As estradas de terra batida viravam estradas de lama inacessíveis. Não podia voltar ao barracão o filho mais velho, Charles, o único ganha-pão na casa e que ia sustentando todas as sete bocas da sua família. A noite foi rígida. Um dos pequenos estava muitíssimo doente e a fome não ajudava. Morreu nessa noite o coitado. A esperança ia escasseando. Depois de alguns tempos de opressão, exploração e tortura eram motivos para se desejar um dia de sol e com a radiante notícia. A família separada pela prisão de uns e morte de outros andava fugida da polícia política. Já tinham visto homens, crianças, mulheres, idosos, incapacitados, casas e aldeias a serem dizimadas por tiros e bombas, por homens sem cabeça.
Charles corria aos gritos em direcção à porta do barracão. O sol ia nascendo e prometia durar e ser quente. Os sinos tocavam tão alto que se faziam ouvir bem longe mas Charles gritava ainda mais alto. O fim da guerra e da opressão chegara finalmente. Charles gritava:

-Franco morreu ontem, mãe! Franco morreu ontem!

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