"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

11/11/2013

O prazer, é simples, assim.

- Podes tocar-me, não mordo. – Riu-se enquanto ela olhava fixamente, perdida na imensidão do quarto.

A timidez dos lençóis enrolados confundia-os com a timidez da paixão. Lá foi ela, de toque leve, tocando. Os suspiros intensificavam-se e ouvia-se os ecos dos mesmos a baterem contra a parede como se não existisse outra arte para além desta que é o sentir à flor da pele. Ela era tímida, mas tinha a capacidade de gostar até ao mais pormenor dos defeitos deles consumidos pelo tempo. As marcas do peso do seu corpo, aquela cama que conhecia de cor. O peso das memórias do erotismo deles também. 

- Empina-me esse cuzinho para aqui e dorme encostada a mim. – Perguntava-se, quando chegaria a altura de resistir ao fruto proibido porque, no fundo, por muito que gostassem um do outro apercebiam-se que só aqueles momentos existiam. Que só existiam segredos entre os dois porque as paredes daquele quarto queriam contar. Aprendera com ele a olhar-(lhe) olhos nos olhos. Cada vez que ele descia e percorria cada centímetro do seu corpo. Cada vez que ele enrolava os seus cabelos nos seus dedos grossos e puxava com força para ouvir um – “Ai!” – inocente de uma boca com lábios bonitos, carnudos e apetitosos. Ela recorda-se como foi a sua primeira vez. Tão natural porque foi com ele. Porque, a sensação de acalmar uma guerra nos lençóis, com ele, era maravilhosa. Por vezes, ficavam ali a noite toda e mesmo assim de manhã a vontade renascia mesmo que essa vontade estivesse rodeada de nãos e afins. Ela acreditava, que ficaria para sempre aquela sensação de que fez o correcto porque passado tanto tempo continua com a mesma vontade de saciar a mesma pessoa, todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Mas, esta paixão ardente parece não perceber que não basta ver fogo, há que queimar.

- Puxa-me o cabelo – Pedia-lhe muitas vezes. Era uma forma de ignorar o amor. E concentrar-se em sentir dois corpos acesos a chocarem contra si, com uma vontade enorme de se foderem até de manhã. Mesmo assim, ela, não esquecia que era ele que lhe puxava os cabelos. Ele.

- Fode-me… Que quero sentir-te ao mais alto nível. Quando sinto os teus dedos dentro de mim o calor afoga-me em êxtase. És a minha droga do sexo. Do desejo. Da intensidade. Quando me cruzo com o teu charme, com o facto de saber quem és tu, esqueço o Mundo lá fora e cá dentro. Mesmo que a cama faça um barulho estrondoso e que os vizinhos saibam o que estamos a fazer… Faz mais!

A vontade era mútua. A necessidade, mútua também, passava extremos e limites.
Ele até podia gostar de foder esta ou aquela, mas era tudo tão banal. Era a simples e única manipulação que o levavam a isso e era esta mesma manipulação que lhe dava prazer. E não o sexo. O sexo, com outras, era banal e simples. Era o simples acto e pouco esforço de uma posição e mais nada. Acabava e fazia por adormecer, ansiando pela manhã. Com as outras, não havia manhã, não havia tentativa de pequeno-almoço; havia apenas a vontade e a rapidez de sair dali.

Com ela; com ela era diferente. A manipulação era um jogo a dois. Eram trocas de beijos; a boca a percorrer-lhe o pescoço enquanto os dedos percorriam outras partes e a obrigava a suspirar de maneira sôfrega e a cravar-lhe as unhas nas costas com força num “Quero mais!” frenético e doloroso que ele ansiava e gostava mais que tudo. Ela mordia-o sem se importar com marcas ou com a dor que provocava; ele retribuía puxando-lhe os cabelos e puxando-a para cima de si. 

Ela parava. Sentada em cima dele, com as mãos no peito dele, olhavam-se nos olhos. Ambos gritavam pelo mesmo. Tanto um como o outro tinham no pensamento a mesma coisa. Ele, antes que ela voltasse a pedir, voltasse a dizer para a foder, sorriu de forma desavergonhada. Com força, agarrou-a, subjugando-a, fazendo-a repetir movimentos lentos quando ela queria mais, fazendo-a gemer.
Acabavam ambos exaustos, suados, aos beijos por cima dos lençóis finos; acabavam sempre insaciados. 

O prazer, para ambos, era simples assim. No limite da paixão que não queriam; no entrosamento do jogo que era foderem e nos jogos da manipulação que ambos adoravam juntos com a dor que ambos procuravam na selva que aquele quarto se tinha transformado.
O prazer, é simples, assim.


cs e Ricardo Cunha

3 comentários:

  1. «Porque, a sensação de acalmar uma guerra nos lençóis, com ele, era maravilhosa. » adorei mesmo, superou as expectativas que tinha :)

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