"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

16/11/2013

XVI.XI.MMXIII

Suspiro último no gelo da madrugada, respiração entrecortada pelo batimento cardíaco mecânico das máquinas ligadas ao sistema nervoso central, fios tecidos pelas Parcas modernas, prolongam-se os fios da vida enfiados entre gotas contadas ao milésimo de segundo de sedativos. O coração delonga-se a bater debaixo da mão quente dela, pele fria de quem quer deixar a vida fugir por entre os olhos semicerrados e juntar-se ao calor dela por outros meios.
Os joelhos dela fraquejavam, a voz tremia enquanto as lágrimas eram engolidas como veneno que lhe corrompia a alma cansada - tão cansada, tão exausta, tão sem vontade de engolir nada e de desabar no outrora amplo peito dele, amplo de voz grave de homem e de noites de amor, outrora amplo e agora vazio e mantido pela frieza das máquinas, impessoal, desumano.

"Se o amor curasse tudo, ele não estaria a um passo por segundo longe de mim, estas paredes seriam pintados de cor do sol quando se põe no verão e de risos perdidos no meio daqueles olhos que agora nada conseguem ver, nada encontram em mim."

Se o amor curasse tudo, seríamos pretéritos imperfeitos imortais, pois o amor salva e mesmo assim agora o amor mata-se, enquanto a doença o mata a ele. Ele deitado, a respiração fraca a mostrar que ainda luta, não morre, ainda não, não nesta hora, não neste segundo. E ela, debruçada, se ele morre mata-me também, se ele for eu também morro, morro por dentro e serei carcaça sem vida. E já algum sábio sádico disse, quão triste e doloroso é amar algo que pode ser tocado pela mão fria e gentil da morte.

6 comentários:

  1. as nossas interpretações vão fluindo, ingénuos leitores, e no fim a imprevisibilidade arrebata-nos.

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  2. Pungente.
    E nestas linhas recordei um dos melhores filmes do ano transacto... "Amour"...

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