"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

08/01/2014

As cartas das palavras que ficaram por dizer

Mãe, 
Eu não sei como te amar. És minha mãe e dizem que o amor entre nós é eterno, desmedido e inabalável. Que mentira tão grande… Nada é inabalável. É verdade que te amo, mesmo quando não sei como o fazer. Mas também é verdade que me desfaço quando tu abalas o meu mundo e o nosso amor.
Sempre te perdoei tudo. Não porque és minha mãe, mas porque te amo. A diferença é que perdoar não é esquecer e há coisas que não se esquecem. Sou a primeira a sair magoada com os teus erros, mas isso nunca me fez desistir de ti. Tu és humana, tens a justificação sendo a prova viva dela mesma.
E não fiques triste quando digo que não sei como te amar. Eu nunca soube amar o eterno, eu nunca o tive. E tu és a única certeza de que o eterno existe e o amor desmedido também.
Nunca me peças para esquecer, não sei fazê-lo. No entanto, nunca imagines que deixei de te amar um pouco mais só porque cometes erros.
Não és perfeita, sendo que és a minha perfeição na vida. Tudo porque és eterna e me dás amor desmedido. E sei que serás a única, porque todos os outros amores serão diferentes do teu.
           Eu não sei como te amar. Eu amo-te.


Minha filha,


                Nunca pensei que alguém sentisse isto por mim. Assim, de forma tão pura. Sei que a vida nunca foi fácil para ti e eu não ajudei. Se tu soubesses o quanto queria que fosses feliz! Sempre tentei dar-te o mundo mas esqueci-me que o mundo não se dá: conquista-se. Constrói-se a cada dia, com carinho, como se de uma flor se tratasse e cada um de nós fosse jardineiro de si próprio. 

                Talvez tenha errado logo ao princípio, não te conquistei. Amei-te por seres minha filha, mas não me deixei render à pessoa na qual te podias tornar. Sempre te vi como minha, uma espécie de dado adquirido que recebi do teu pai, com amor. Sabes que ele te ama, e não lhe apontas as falhas como a mim. Será porque pensas que não te amo? 
                Não foi fácil criar-te. Sei que não tens culpa, os filhos nunca têm culpa da vida dos pais, nem têm culpa de terem sido postos no mundo. Não te posso culpar, não tem justificação possível essa dor que em ti criei, mas quero que saibas que não foi intencional. A minha amargura embateu em ti e não fez ricochete. Tornaste-a tua e hoje estamos aqui, perdidas. 
                Ainda há amor em mim para ti, sempre houve. Era demasiado nova quando te tive, mas foste tu que me fizeste crescer. Foi por ti que cresci. E hoje, crescida que estás, comunicamos por cartas porque quando nos encontramos apenas gritos se ouvem. Nunca gritei que te amo embora gritemos ambas que não há solução para esta relação.
                Mas há filha. A solução é o amor e esta carta é o grito que sempre calei. Grito que te amo e tudo o que queria era poder abraçar-te, minha pipoquinha.




Por Eliseia (a filha) e Mariana Pereira (a mãe).

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