"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

24/02/2014

Vagabundo

Sei que tens fome, mas, antes de falares, peço que me desculpes.
Desculpa-me.
Nada mais te te posso dar que umas humildes migalhas do pão duro do almoço de ontem  e um pouco do ar poeirento que respiro na minha casa, digo isto em jeito de oferenda, a minha casa está aberta para ti, esta noite, se assim o quiseres ou se assim a geada te obrigar.
Sei que nada disto te pode matar a fome por um dia ou dois, mas, pelo menos, irás conseguir subjugar a fome  o sono por umas horas.

Entra!
Não te acanhes, sou só.
Vamos, segue-me, troca as tuas roupas por aquelas. Tens aqui um par de luvas novas – estas têm dedos –, um cachecol de tecido já um pouco gasto, mas garanto-te que a sua função ainda está muito apurada, um gorro negro para cobrires a cabeça e não deixares que os pensamentos gelem, umas calças e uma camisola, ambas sem buracos!
Eu sabia, a roupa ia servir. Bem, aqui tens o pão, afinal o prometido é devido.
No mesmo instante em que metia o naco de pão à boca um pontapé, seguido de um urro, atinge-me o corpo.

 – Ei, vagabundo, acorda! Desanda daqui fedorento!

Outro sonho. Caindo na realidade,  passava as mão molhadas pelo rosto e fitava o espelho da casa-de-banho. Vendo-se reflectido, dizia, de dentes cerrados:
-Que ingénuo. Claro que tudo não podia passar de um sonho. Onde iria ter eu casa e roupa? Onde iria eu ter um naco de pão? Impensável, impensável...

Enquanto colocava o gorro, caminha para a rua. Deu dois sopros para aquecer as mãos e aventurou-se para mais um dia. Uma mulher passa por ele.

-Senhora, compaixão, um pedaço de pão para um vagabundo esfomeada. Sonho encher a barriga. Umas migalhas de pão, senhora...

Virou-lhe as costas, fez de conta que ninguém a abordara. Ele insistia, tremido:

-Senhora, compaixão... -  suspirava.

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