"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

19/03/2014

Pensamentos; apenas pensamentos.

É quando entro em desespero e quando já sinto o batimento cardíaco tão ritmado na minha cabeça que acabo a ver-te, mesmo estando de olhos fechados. Como se estivesse algures no deserto e tu fosses apenas uma miragem. É quando as dores tocam o seu ponto mais alto e a intensidade delas não diminui que acabo a ver-te. Lembro-me sempre de ti. E fujo sempre a isso. Até que um fundo de coragem me assaltou, vindo de um pedaço de mim que nem sabia que existia. E tudo isto se escreveu; as palavras imploraram para sair, mesmo quando o meu cérebro estava tão cansado. Memórias tuas assaltam-me sempre nas alturas em que não tenho qualquer capacidade de lutar contra elas. 
Lembro-me sempre de ti. Daquela tarde, quando nos conhecíamos há tão pouco tempo, em que me fechei no quarto às escuras com dores e o mesmo pedaço de gelo moldável que tenho colado à cabeça. Sabia que a alguns quilómetros de distância te encontravas a fazer o mesmo que eu. Que as minhas dores eram tão fortes como as tuas; aliás, foi isso que nos ligou. Lembro-me de ter descoberto isso no dia de Páscoa, tinha ido almoçar a um restaurante com a família e estávamos num espaço fora do restaurante à espera de mesa para almoçar. Lembro-me de estar parada em frente a um carro a falar contigo por mensagens quando soube que tu tinhas as mesmas dores que eu; incuráveis, constantes, de levar ao desespero. 
Bem, é sempre essa a memória que me envolve quando as dores ficam mais fortes. Até hoje ficou presa cá dentro, impedida de sair por mim. Agora conseguiu sair, talvez seja do desespero que sinto, da falta de ação que parece que tenho. Talvez seja de me lembrar de ti e saber que não posso guardar isto mais tempo. Chorei. A intensidade das dores misturou-se suavemente com as memórias que tenho tuas. Lembro-me claramente do teu quarto, da janela em que o sol o iluminava, da cama de ferro branca e da colcha com motivos florais. Lembro-me de ti, do teu cabelo castanho claro a envolver-te o rosto, dos teus olhos quase verdes num dia e castanhos claros no outro. Lembro-me dos teus lábios e da forma como sorrias para mim, da tua voz. Da forma que mal chegavas a casa me ligavas, me querias ver, me querias ter mais perto. E sinto saudades; quem sabe se de partilhar contigo estas dores, como naquela tarde. Quem sabe de te chamar. Quem sabe de ter a certeza que não fumaste o maço de cigarros todo e se a sandes com queijo que comeste no intervalo serviu para te aconchegar o estômago. Tenho saudades tuas. Chegam a ser tantas que não consigo discernir se as tenho porque sim ou por me sentir culpada de alguma coisa. Sei que não fui perfeita todo o tempo em que nos cruzamos mas tu também não foste. Não me canso de me lembrar do mal que me fizeste e do bem que achava que me trazias. Não me canso de tentar perceber por que raio não te consigo tirar da cabeça e do coração já te tendo riscado da minha vida. Tudo isto dói. Dói sempre que me lembro que escreveste algures, maldosamente, que nunca me consideraste tua melhor amiga, quando todos os dias recebia um "bom dia bf"  teu. A sério? A sério? A sério que mentir foi a tua melhor opção? A sério que foderes-me a vida foi o que achaste mais benéfico fazer? A sério que achaste que eu colocaria as mãos no fogo por ti em que nunca me ias trair daquela forma? Tu não devias ter feito o que fizeste. Não devias ter estragado a nossa amizade como estragaste. E aqui estou eu, dois anos depois, sem conhecer a data do dia em que me fodeste a vida, a chorar por tua culpa, como se tu merecesses. A ter a cabeça às voltas e a assaltarem-me memórias do que fomos. Aqui estou eu, milhões de textos raivosos depois, milhões de textos saudosos depois, sem saber o que fazer comigo porque tu não sais de mim. E já não digo que a culpa seja tua; já não te deixo estar presente há tempo suficiente para que o seja. A culpa só pode ser minha. Aqui estou eu, sem sequer saber se te lembras de mim, sem sequer saber se tens saudades minhas, sem sequer saber se estás feliz. Mas a querer, por tudo, que estejas. Feliz, segura, amada. Tudo o que eu tentei, um dia, dar-te. E tudo o que tu estragaste. Tenho tanta pena. Mas tanta pena. Não queria que as coisas tivessem sido assim. Porque é que tinhas que estragar tudo? Porquê? Porquê? Nunca me vou cansar de me repetir. Porque tenho fases destas, fases em que as respostas querem aparecer porque não me sinto satisfeita da forma como as coisas acabaram; ou como eu as acabei. Talvez por não saber sequer se alguma vez foste sincera comigo, de forma absoluta. E gostava de, um dia, conseguir saber se o foste. 

1 comentário:

  1. Palavras fortes que consomem o coração... Percebo a dor, o porquê... Mas não tens culpa. Teríamos todos a culpa se assim o fosse, o coração- esse que guarda tudo o que aqui escreveste- está pronto para tudo isto. Não sentiríamos dor se fôssemos mais fortes que ele, por isso é que os laços que criamos às vezes se tornam tão complicados mesmo quando parecem já nem existir. Já to disse, volto a dizer, tão bom que é saber que ainda existem pessoas que escrevem com a alma como tu. :)

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