"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

16/03/2014

Quero continuar a ter medo.

A minha ausência do teu raio de acção assusta-me. Tenho receio de acordar, um dia, e já não fazer parte do teu ser. Do teu dia-a-dia. Da tua manhã e da tua noite. É estranho; sermos tanto com tão pouco. É estranho, eu querer habituar-me a estar perto de ti desta forma, só porque não tenho a palpável. Não tenho o toque, o imediato. O medo que eu tenho que tu desapareças da minha vida é irracional. Faz com que eu, pessoa que não pára de pensar nos porquês que a vida nos faz pisar, não consiga sequer descortinar palavras para me entender. Tudo isto parece passar-se numa galáxia muito distante do meu cérebro, num à parte da vida que levo. Como se não acontecesse comigo mas com outra pessoa qualquer muito próxima do que sou, com um outro eu que não eu. No entanto, por mais estranho que me pareça, passa-se comigo. Passa-se na minha pele. E demora a chegar cá fora porque cá fora poucos o entendem. Na realidade, só duas pessoas devem conseguir entendê-lo; nós. Não é que tenha algum problema em que assim seja porque não tenho. Gosto disto, gosto de receber pequenas promessas embrulhadas em palavras que só eu e tu entendemos. Gosto de te dar o olhar porque não posso dar-te mais que isso. E, nessas alturas, os olhos chegam-me. 
Tenho, por outro lado, plena noção de que tenho tudo o resto. O que o toque não trás, o que apenas os olhos me fazem ver. Sei que te invadi o espaço sem o querer fazer, que te deixei interromper-me a linha que estava a seguir só para permaneceres. Mesmo que me assuste o facto de te querer assim, de te querer aqui. Ou de me querer aí. Simplesmente de te ter como companhia. De poder estender a mão e acariciar-te a face quente. De sentir o sangue pulsar-te no corpo por me teres por perto. De querer inventar novas palavras que me façam explicar(-te) o quanto preciso de ti na minha vida. E o medo que tenho de que tudo isto seja apenas uma curta passagem que me trará um qualquer ensinamento. É inseguro demonstrar-te todas as saliências escondidas do meu ser porque sei que podes ter passagem marcada para um outro lugar. Um que eu não possa caminhar ao teu lado. E volto a ter medo. De ser tanto com tão pouco. De sentir tanto não devendo. De estar não fazendo completamente parte do que és. Porque eu sei, dás-te pouco, a poucos. E ainda não consegui perceber o que tenho eu que te faz entregar-me pequenas partes do que és, como se fossem presentes e como se eu os merecesse. Talvez os mereça, por permanecer quando parece que estás só. Ou talvez não, por te fazer pensar demasiado sobre o que aconteceria se não estivesses só. Se possuísses outra companhia que não eu. Tenho medo. Da ausência. Mas, se estivesse presente, talvez tivesse medo da presença. Por isso acho que tenho apenas medo. Apenas medo que tudo isto seja alguma coisa que não sei dizer o que é. Tenho medo de sonhar acordada e de, um dia, acordar e não estares. Não quero que vás embora, quero continuar a ter medo. Pode ser que essa seja a forma de eu perceber que estás por cá.

2 comentários:

  1. Este texto está absolutamente perfeito.

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  2. Linda demonstração do que é ter e ser o "medo"... Identifico-me com a tua escrita, tão suave como gosto da minha minha. Adorei! Tudo

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