"A vida são dois dias
Um serve para escrever o melhor texto do Mundo.
O outro para morrer a lê-lo."

15/08/2015

O sujeito que eu escondi

Pequenina e maria rapaz. É como todos me conhecem. Sempre com a bola nos pés ou nas mãos, sem usar saias nem vestidos. A miúda que passava os dias com os rapazes a brincar, porque as meninas eram uma seca. Futebol a toda a hora, Karaté em vez de Ballet, trepar muros, rochas e árvores. Nódoas negras nas pernas, umas em cima das outras. Andava lá fora sempre que podia, o ar puro e a natureza sempre me fizeram bem. Os anos passam e há mudanças em nós, a adolescência. Comecei a identificar-me com as raparigas e os rapazes continuaram a ser os parceiros das asneiras. O Karaté e o Futebol desapareceram, as nódoas negras também. O mau feitio, esse, mantém-se. Resmungona até dizer chega. Troquei o pátio e o jardim pelo quarto de porta fechada com o computador ligado. É assim que passo os dias quando estou em casa. O amor pelo ar livre continua cá dentro, mas a alegria que outrora tinha morreu há muito. A adolescência é uma fase complicada, começamos a descobrir os sentimentos, descobrimos os outros e descobrimo-nos a nós. A minha experiência a conhecer os outros foi um fracasso, de tal maneira que acabei sozinha. E a experiência de me conhecer a mim própria essa continua a acontecer e nem sei o que dizer para além de estar a ser cruel. O conhecimento do meu corpo é doloroso, de forma a evitar olhar-me ao espelho. Passo semanas sem fazê-lo e quando o faço é só para encontrar mais um e outro defeito, que me faz sentir horrível. A minha péssima autoestima é o meu segundo grande defeito. Não basta o quão grave é não gostar do meu exterior como nunca ouvi um elogio de um único rapaz e isso só piora ainda mais a situação. Mas tenho aos poucos iniciado um processo de mudança na miúda maria rapaz e tenho-me tornado um pouco mais feminina, porque quero e porque comecei a gostar por mim própria dessas mesmas roupas, sem qualquer pressão da sociedade. E o mais engraçado é que as pessoas que me rodeiam parecem não aceitar e eu odeio isso. Porque é mau quando queremos mudar para melhor e nos deitam abaixo. E agora que tenho mudado não tenho ninguém a quem me mostrar e que aceite o meu novo eu e acabo novamente desmotivada e afundada na minha fraca auto estima. Quanto ao conhecimento do meu psicológico o panorama não é tão drástico apesar de ser muito mau. O meu sujeito escondido é um ser triste, desorientado, depressivo. Um ser que acumula mil e uma coisas e que dificilmente fala sobre elas, porque estão no mais fundo de si. Um ser que precisa de ajuda mas que nunca pediria essa ajuda porque tem vergonha de falar, fechado dentro de uma sala com um estranho. Porque há coisas que não se conseguem falar por serem o mais íntimo de nós. As outras vou desabafando com as pessoas que me ganham a confiança aos poucos. E o quão difícil é ganharem-me a confiança, destruir este muro que imponho a tudo e todos. Por ter o coração dorido de tantas feridas. Sou assim reservada, porque a vida me levou a isso. Uma rotina diária enclausurada que me prende e não me deixa viver o mundo, consequência do meu terceiro maior defeito. Não ter metas a nível profissional, não ter planos para o futuro. Estou farta que as circunstâncias da vida me levem a um estado de avalanche depressiva. Uma pessoa triste, solitária, carente, negativa. Com inveja de quem anda por aí a gozar o que há de bom, porque eu não tenho oportunidades de o fazer. Um alguém que desistiu de sonhos, que ama verdadeiramente e que sai sempre magoado. O sujeito que eu escondi é um sujeito frágil. Mas o conhecimento bom do meu “eu” psicológico é o facto de camuflar todo este sujeito que há em mim. O facto de me fazer de forte e construir o tal muro que não deixa as pessoas aproximarem-se, nem me faz aproximar das pessoas enquanto não as analiso, enquanto não vejo algo, nas pessoas, que me cative. É por isso que muita pouca gente sabe de mim e quem não sabe por vezes diz que sou misteriosa. E de tanto me fazer de forte acabo por saber sê-lo em determinadas situações. Esse é o lado bom das desilusões, porque de tanto fazer mossa chega a um ponto que já é um hábito e desligamos mais rapidamente de quem nos magoou. Aprendi a proteger-me, aprendi a pensar em mim em certos momentos. Agora só me falta aprender a ser feliz...

3 comentários:

  1. Boa Noite, desculpa ontrometer-me assim nos teus desabafos. Não sei se ainda estás na fase da adolescencia ou já atingiste a idade adulta... Mas queria partilhar contigo que essas fases também as tive, é triste nao termos objectivos de vida, e ver os outros a te-los e a vive-los. é triste isolarmo-nos e acharmos que não há ninguem que nos olhe como queremos. Mas acredito que és uma pessoa forte pelo o que escreves e que quando for o momento certo vais atrair as pessoas certas, e vais aprender muito com elas.
    Não desistas de ti, valoriza-te todos os dias mesmo que para os outros possa ser nada, faz com que essas pequenas vitorias te deem a força para seres tu própria e gostares de ti.
    Beijinho. Qualquer coisa ando por aqui *

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    1. Eu tenho 21 anos. Um obrigada sincero pelas tuas palavras. Espero que tu já tenhas ultrapassado essas fases e que agora sejas feliz. Gostava de visitar o teu blog, mas não tens nada no teu perfil nem sei se vais ver isto.

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  2. Bem, espero sinceramente que consigas ultrapassar essas barreiras. Que saltes o muro dessa prisão, uma prisão que não é real na verdade, e que com o tempo deixará de ser a tua rotina. Volta a ser quem eras. Volta às metas, minha querida, que isso é o essencial para não perderes o Norte. Sejam metas profissionais, pessoais, a nível físico ou psicológico. Mas não pares. Não estagnes. Ainda tens tanto para dar!

    Beijinho.

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